E antenção: notícia urgente!

por

O Âncora

Agora são oito horas e um minuto da noite. Com o fim da “Voz do Brasil”, sua rádio Tribuna Central, operando em Amplitude Modulada e nas ondas da Internet, volta ao plantão de notícias.

Jingle

Têêêêêêêêêê-Cê Ááááááááááá-Emê Estamos ouvindo você.

O Âncora

E voltamos a informar diretamente do interior do Paraná, onde o laboratório de uma empresa do setor de pesquisa agrícola corre o risco de ser invadido a qualquer momento por uma multidão de trabalhadores rurais sem-terra. Vamos falar com a repórter Helen Gárcez, que acompanha tudo no local desde o início da tarde. Helen, você nos ouve? O que pode informar a nossos ouvintes em todo o Brasil? Boa noite.

A Repórter

Boa noite. Ouço bem, Herbert. Estou aqui no município de Telêmaco Borba, a aproximadamente 250 quilômetros da capital, Curitiba. Diante de mim está aquela que é considerada a maior estufa da América Latina, usada pela multinacional TransCiência como laboratório para o cultivo de produtos geneticamente modificados. É uma enorme redoma feita de um plástico especial, transparente. Neste momento, cerca de cem manifestantes do movimento Trabalhadores Campesinos gritam palavras de ordem e ameaçam invadir as instalações da empresa. São pessoas das mais diferentes origens, vejo descendentes de japoneses, de alemães, negros, gente de toda parte do estado. Somos a única equipe de imprensa aqui cobrindo a manifestação ao vivo. Não podemos nos aproximar muito porque este movimento é muito hostil à presença de jornalistas, mas acho que vocês podem ouvir os gritos de ordem deles pelo meu celular. Um instante, vou ajustar o fone direcional do aparelho para tentar captar o som… lá vai.

Multidão

…com a comida de laboratório! Não somos cobaias das multinacionais! Fora com a comida de laboratório! Não somos cobaias das multinacionais! Um, dois, três, quatro-cinco-mil, queremos que os transgênicos vão pra puta que pariu! Um, dois, três…

A Repórter

Como vocês podem perceber, o clima por aqui é de guerra desde o início do dia, quando os manifestantes armaram acampamento no terreno em volta da estufa. No meio da tarde, eles deixaram suas barracas improvisadas de lona azul e passaram a cercar o laboratório, impedindo o acesso de funcionários e de pesquisadores. Apesar de muitos dos recursos da empresa terem sido adquiridos através de convênios com a Universidade Federal do Paraná e com a Embrapa, o governador não autorizou o envio de tropas da Polícia Militar para conter a manifestação. No momento, apenas os seguranças da multinacional fazem um cordão de isolamento para tentar impedir a entrada de dezenas de pessoas, muitas delas armadas com enxadas, pás, foices e facões.

O Âncora

Helen, você conseguiu falar com algum líder do movimento?

A Repórter

Não, Herbert, como eu disse os Trabalhadores Campesinos são uma dissidência do MST muito radical, eles não contam com nenhum porta-voz ou… Um momento… Atenção, estúdio, começou uma movimentação mais intensa aqui. Aparentemente, os manifestantes estão avançando contra o laboratório da empresa neste momento. Sim, eles romperam a barreira dos seguranças e passaram a arrombar as portas da estufa. Com golpes de enxadas e chutes, a multidão forçou a entrada… Conseguiram, os Trabalhadores Campesinos invadem, neste momento, a maior estufa experimental da América Latina. Entre gritos e muita correria, dezenas de homens, mulheres e até crianças pequenas estão destruindo com golpes de foice as plantas transgênicas do local. Quem não está portando alguma ferramenta se encarrega de arrancar com as mãos ou a pisotear as plantações.

O Âncora

Alô, Helen, você está me ouvindo? Havia algum funcionário no interior do laboratório?

A Repórter

Não, Herbert, a estufa estava vazia e mesmo os seguranças da TransCiência, que tentavam proteger a estufa, permanecem do lado de fora. Enquanto isso, mais e mais manifestantes entram no local pelas portas arrombadas. É muito difícil chegar mais perto, mas o ambiente é bastante iluminado e podemos ver a movimentação das pessoas através das paredes transparentes. Elas estão destruindo não apenas as plantas, mas todos os equipamentos ali presentes. Computadores são jogados ao chão, mesas reviradas. Posso ver que até enormes galões, provavelmente de fertilizante ou de outras substâncias químicas, são arremessados contra as paredes. O caos é generalizado lá dentro.

O Âncora

Helen, conseguimos contato com um dos responsáveis pelas pesquisas feitas nesse laboratório. Orson Wellmann é o diretor-presidente da filial brasileira da TransCiência e cientista-chefe da unidade que está sendo invadida neste instante. Ele está no escritório da empresa, em Curitiba. Vamos passá-lo para sua linha, assim você pode entrevistá-lo e continuar a informar do local. Boa noite, senhor Orson Wellman.

O Cientista

Boa noite, jornalistas, boa noite, ouvintes e internautas no Brasil e no mundo.
A Repórter

Senhor Wellmann, o que o senhor tem a dizer sobre a pauta de reivindicações dos Trabalhadores Campesinos?

O Cientista

Minha cara Helen, sou eu quem pergunto: que pauta? Essas pessoas não estão interessadas em negociar, não apresentam nenhuma disposição para o diálogo.

A Repórter

Mas o movimento faz acusações de que sua empresa não trabalha apenas com a criação de alimentos alterados geneticamente. Eles acusam a TransCiência de ter ligações com grupos militares e alegam que vocês fazem experiências para a fabricação de armas, não é verdade? O que o senhor pode nos dizer a respeito?

O Cientista

Essas acusações, como você chama, são ridículas. Onde estão as provas? Isso não passa de calúnia e de especulações, uma vez que somos uma empresa globalizada, um conglomerado com ações negociadas nas principais bolsas do mundo e com participação de recursos de inúmeros fundos de investimento. Trabalhamos em muitas áreas distintas, em diversos setores da indústria. Porém todas as nossas pesquisas são pautadas pela ética e pelo respeito às leis de cada país em que atuamos. Não é diferente com nossa filial no Brasil.

A Repórter

Como o senhor classifica as ações dos manifestantes, então?

O Cientista

Eles usam técnicas terroristas para impedir nosso trabalho e o progresso da ciência. Talvez os seus ouvintes já tenham ouvido falar dos neoluditas, não? Neoluditas são pessoas que, a exemplo do que aconteceu no início da Revolução Industrial, lá na Inglaterra, no século retrasado, temiam o avanço da ciência e da tecnologia. Eles têm medo – na verdade ódio – por tudo o que é novo e tentam impedir a marcha do futuro.

A Repórter

Então, na sua opinião, os Trabalhadores Campesinos são um grupo terrorista e neoludita?

O Cientista

Minha cara Helen, eu chamo essa gente de neolysenkistas. Explico para você e para seus ouvintes qualificados no Brasil inteiro. Trofim Lysenko foi um homem muito importante na antiga União Soviética, na metade dos anos trinta do século passado. Era o cientista favorito do ditador Josef Stálin. Ele dizia não acreditar na genética como era estudada no Ocidente, a considerava uma ciência burguesa que não estaria de acordo com o materialismo dialético, a ideologia vigente no estado soviético. Sua influência era tão grande que qualquer referência a cromossomos foi banida dos livros didáticos daquele país, gerando um atraso científico e tecnológico incalculável. Mas muito pior que isso: Lysenko afirmava que a sua genética filosoficamente correta iria garantir mais produção de trigo para os russos no inverno. Sabe o que aconteceu na verdade, minha cara Helen?

A Repórter

Não, nunca ouvi falar nisso…

O Cientista

As teses malucas daquele homem levaram fome e miséria a milhões de pessoas nos campos e nas cidades da União Soviética. Destruíram a economia do país e condenaram à morte e à desnutrição milhares de pessoas. E é isso o que essas pessoas, esses neolysenkistas, estão querendo reviver agora, em pleno século vinte e um, aqui, no Brasil. Ao impedir o trabalho de cientistas genéticos, estão criando dificuldades para que se descubram novos medicamentos, novas fontes de alimentos, novos produtos que podem ser fundamentais para o futuro da humanidade e para a economia brasileira. Nosso país é privilegiado tanto por sua diversidade genética natural quanto por contar com alguns dos melhores pesquisadores desta área em atividade no mundo, principalmente entre os que trabalham com sequenciamento do genoma de plantas. É um dos raros casos em que estamos em pé de igualdade tecnológica com qualquer nação do chamado primeiro mundo.

A Repórter

Senhor Wellmann, grata pela entrevista, mas preciso interromper para informar que algo estranho parece acontecer no interior da estufa invadida. Os gritos e o barulho de destruição diminuíram. Posso perceber que a movimentação dos manifestantes mudou de um segundo para o outro.

O Âncora

Helen? Helen? O que está havendo? O que você pode ver?

A Repórter

Tudo certo, Herbert. Sim, é isso mesmo! Vários dos manifestantes que até há pouco corriam e escavavam a terra pararam de se mexer. Pouco a pouco, cada vez mais sem-terra deixam de atacar as plantas e os equipamentos. Eles se limitam a ficar parados. É como se tivessem se esquecido do que estavam fazendo, parecem confusos. Quase todos, neste momento, estão imóveis, são poucos os que continuam… O que é aquilo? Não é possível! Aquelas pessoas começaram a atacar uma a outra! Um homem acaba de esmagar a cabeça de uma criança com golpes de enxada… É horrível…

O Âncora

Helen como isso é possível? São os seguranças que resolveram invadir o laboratório? O que está acontecendo?

A Repórter

Não, não, são os próprios trabalhadores rurais que estão se matando… Todos eles largaram as plantas e começaram a se atacar… Meu Deus do Céu! É a coisa mais horrível que já vi! Homens retalham uns aos outros e às mulheres e às crianças que os acompanhavam. Quem não levava alguma arma, joga objetos do local contra aquele que está mais próximo. Ou ataca com socos, pontapés e mordidas. Muitos estão no chão, se engalfinhando… Todos, mesmo as crianças pequenas, se atacam… o sangue escorre por todos os lados.

O Âncora

Mas como isso é possível? Alguém chegou perto da estufa?

A Repórter

Ninguém se aproximou do local… desculpe, Herbert, mas é muito complicado descrever o que estou vendo aqui. O nível de violência é terrível. Mesmo mulheres, que aparentavam ser as mães de algumas daquelas crianças, estão agredindo quem estiver a seu lado indiscriminadamente. Espere… vocês conseguiram ouvir isto, aí no estúdio, Herbert?

O Âncora

Pareceu um ruído de trovão… ou de uma explosão? Alguma granada? A polícia decidiu agir no local?

A Repórter

Difícil dizer, mas consegui ver um brilho e… sim, uma nuvem de fumaça preta começa a sair do lado da estufa. Posso ver as chamas, o lugar está pegando fogo. É isso mesmo, o incêndio se espalha cada vez mais rápido. Atinge as plantas e corre pelo chão, entre aqueles galões que tiveram o conteúdo espalhado… Outra explosão, desta vez bem no meio da estufa! Várias pessoas foram arremessadas no ar… Mas, meu Deus, mesmo assim eles continuam se atacando! Ninguém está tentando fugir pelas portas arrombadas. Aquelas pessoas ainda estão se matando… Mesmo quem está com o corpo coberto pelo fogo parece mais preocupado em matar os colegas que em se proteger! Não é possível! Um homem bastante idoso que teve o braço arrancado e está com a roupa em chamas avançou em direção da porta, mas ao invés de correr para fora, pegou um facão caído no chão e voltou para atacar uma mulher pelas costas… Nada disso faz sentido…

O Âncora

Helen, que barulho foi esse? O que aconteceu? Você está bem?

A Repórter

Mais e mais explosões, Herbert… Os galões de fertilizante, por todo lado, explodem… A fumaça negra se espalha e aparentemente é tóxica… Calma, peraí, não empurra! Tô trabalhando… Os seguranças fugiram e estão me obrigando a deixar o local… As luzes elétricas se apagaram, foi o gerador interno da estufa que explodiu agora. Só dá pra enxergar alguma coisa graças ao brilho do fogo. Posso ver que o teto está cedendo… A estrutura de metal que dá sustentação ao teto e às paredes da redoma está nitidamente abalada. Acabou de desabar, Santo Deus! O ruído do aço se retorcendo é muito alto. Toneladas de material esmagaram dezenas de pessoas. Mesmo assim ninguém tenta escapar daquele inferno… Acho que ninguém sobreviveu… Alô, Herbert, não é mais possível ficar aqui. Os seguranças me empurraram para longe da estufa, só dá para ver o fogo, cada vez mais alto, e uma enorme coluna de fumaça que encobre a lua e as estrelas…

O Âncora

Alô, Helen? Alô?… Devem ter retirado nossa repórter do local. Vamos tentar refazer o contato com nossa reportagem. Vocês de todo o Brasil ouviram, aqui na Tribuna Central AM, o relato de uma invasão que acabou em tragédia, no interior do Paraná. Aproximadamente uma centena pessoas pode ter morrido. Mais detalhes, depois do intervalo comercial, quando continuaremos com nossa cobertura exclusiva, ao vivo, no lugar onde acontece a notícia. Com o apoio da TalkCel, a única operadora de celular presente em cem por cento do território nacional, somos a emissora que ouve você.

Jingle

Têêêêêêêêêê-Cê Ááááááááááá-Emê Estamos ouvindo você.

O Terrorista

Agora só vai ter enrolação. Já dá para desligar e comemorar.

O Cientista

Mude de site, ponha alguma música. Vou pegar o vinho. De fato, tudo ocorreu exatamente como o previsto ou ainda melhor.

O Terrorista

Tinha alguma dúvida, Orson? Minha organização dá cem por cento de garantia em nossos serviços. Dissemos que vocês iriam conseguir, ao mesmo tempo, a experiência com humanos que tanto queriam e toda a publicidade necessária para lançar o novo produto.

O Cientista

Às vezes, a eficiência de vocês me assusta, senhor Neves.

O Terrorista

E então? A nova arma é tudo aquilo que seus pesquisadores vinham anunciando mesmo.

O Cientista

É verdade, é verdade. Bendita a hora em que li aquele paper da Royal Society sobre os possíveis impactos de um obscuro protozoário no comportamento da sociedade. Em apenas seis páginas, os cientistas londrinos me deram a idéia de usar o Toxoplasma gondii, o causador da toxoplasmose, como matéria-prima para o gás do ódio.

O Terrorista

Ah, foi essa a fonte original do seu insight.

O Cientista

Sim, “Pode o Toxoplasma gondii, parasita comum do cérebro, influenciar a cultura humana?” era o título do documento, em uma tradução livre. A academia de ciências do Reino Unido estava preocupada com as evidências que esse simples parasita podia afetar o cérebro das pessoas e induzir novos comportamentos. O protozoário se mostrou capaz de atravessar a membrana de nossas células de autodefesa, invadir o núcleo e simplesmente enganar todas as barreiras imunológicas do cérebro humano. Um verdadeiro fenômeno da natureza, ele agia como um hacker, invadindo um computador, alterando o software e o obrigando o hardware a funcionar segundo sua vontade. Em um segundo documento, apresentado durante um encontro anual da Sociedade Internacional de Neurociência do Comportamento, disseram que o microorganismo havia desvendado “o vocabulário dos neurotrasmissores e hormônios”.

O Terrorista

Em suma, estamos falando de um bichinho muito esperto.

O Cientista

Realmente… Vou abrir o vinho, se conseguir encontrar o sacarrolhas. A lista de alterações comportamentais que o pequeno biohacker é capaz de provocar varia entre os sexos. Torna as mulheres mais afetivas e os homens mais conformistas. Parecia capaz de deixar as pessoas mais afeitas a sentimentos de culpa. Por um lado mais predispostas a se envolver em situações de perigo, por outro, avessas a mudanças.

O Terrorista

Uma alteração e tanto na química cerebral, com certeza. Compraria um lote desse parasita se ele conseguisse tornar minha última sogra uma mulher mais afetiva… Mas acho que nem ele seria capaz de tal feito, como também não falharia se tentasse me provocar esse tal de sentimento de culpa.

O Cientista

Verdade, meu caro Neves. E no mundo inteiro são bilhões de pessoas infectadas com toxoplasmose. Um detalhe que me chamou a atenção é que o país mais atingindo seria justamente o Brasil, com quase setenta por cento da população servindo de portadores para nosso amigo. Culpa, como é evidente, dos serviços indigentes de tratamento sanitário deste país, que facilitam o contágio do parasita. Não é irônico? O Brasil pode ter mesmo alguns dos melhores engenheiros genéticos do planeta, mas não consegue fazer o esgoto chegar à maioria das casas e nem acabar com infestações de ratos. Por falar em ratos, o que me interessava mesmo era um outro experimento, feito em Oxford. Nele, se provou que o Toxoplasma gondii era responsável por uma alteração ainda mais radical no comportamento dos roedores. O parasita simplesmente induzia esses animais ao suicídio, imagine! Em um labirinto os cientistas marcaram alguns cantos com o cheiro da urina de gatos. Cobaias saudáveis fugiam dali como se o diabo os perseguisse. Mas para os ratos contaminados, aquele odor provocava a mesma atração que o cheiro de comida. É como se os mamíferos, controlados por um micro-organismo em seus cérebros, implorassem para ser devorados!

O Terrorista

Se uma coisa dessas não puder ser usada em uma arma biológica o que mais poderia?

O Cientista

De fato, foi exatamente isso o que pensei. Só precisávamos imaginar o modo como aproveitaríamos aquela habilidade adorável do protozoário. Nos laboratórios da TransCiência detectamos, isolamos e potencializamos os genes responsáveis pela indução do suicídio. O próximo passo foi inserir em algumas plantas, geneticamente modificadas, aquele material, para que liberassem no ar uma nova toxina, junto com a produção normal de oxigênio. Temos assim nosso gás do ódio. Onde minha secretária pôs aquela coisa?

O Terrorista

Imagino que vocês tenham em estoque gás suficiente para começar uma produção industrial.

O Cientista

Claro, claro, controlamos todo o processo agora e já podemos sintetizar o gás em grande escala. Foi só fazer a, digamos, bioengenharia reversa da toxina produzida pelas nossas plantas modificadas. Por isso aquela estufa já era dispensável e pudemos destruí-la daqui, do meu escritório, acionando os explosivos ocultos em sua estrutura. O ambiente hiperoxigenado e a quantidade de substâncias inflamáveis ajudaram a espalhar o incêndio e acabar com todas as pistas que nos comprometessem. O fogo vai consumir qualquer traço do gás e queimar todas as plantas e as cobaias humanas. As precauções nem são tanto por medo da investigação da polícia local, a ideia é evitar espionagem industrial. A investigação de nossos concorrentes privados é muito mais eficiente que a dos agentes do estado, afinal de contas. Agora é só acionar o seguro, pôr a culpa nos sem-terra e recuperar o dinheiro investido. Mas aquele laboratório nos serviu como campo de testes na última experiência necessária: a aplicação da toxina em seres humanos em uma situação real. Para isso, foram muitos úteis aqueles camponeses raivosos que sua organização manipulou para atacar nossa estufa. Achei o maldito abridor!

O Terrorista

Essa foi a parte fácil do plano, nem exige os conhecimentos técnicos de sua equipe de cientistas. Não falta mão-de-obra, criar um movimento social desses no Brasil é tão fácil quanto abrir uma ONG ou fundar uma nova igreja. Parasitar a estrutura estatal e paraestatal deste país para fazê-la funcionar como queremos é um trabalho mais fácil que o do seu protozoário alterando comportamentos. E o melhor é que, com toda a divulgação dramática do episódio, teremos a propaganda ideal para apresentar o produto aos vários grupos que demonstraram interesse em adquirir o gás do ódio. Nossa rede já entrou em contato com árabes, palestinos, chechenos, ditadores africanos, as Farc…

O Cientista

Pronto, está aberto, agora me alcance as taças, por favor. Sim, a experiência é a prova de que a toxina, quando lançada entre uma população predisposta à violência e com as condições necessárias para exercê-la, pode provocar uma chacina por controle remoto. E, graças à diversidade da amostra de camponeses que o senhor nos forneceu, comprovamos que o gás funciona em ambos os sexos, com qualquer faixa etária e em diversas etnias. Quase choro de tanto rir ao me lembrar que nem mesmo Darwin se interessava pelos parasitas, sabia? Ele dizia que as criaturinhas rastejantes eram só um desvio no curso natural da evolução das espécies. Tome, sua taça.

O Terrorista

Então o velho Charles teve o seu dia de… como é mesmo o nome daquele russo que você citou na entrevista, Lysenko? Obrigado, Wellmann. Um Romane Conti sempre cai muito bem com o frio da noite de Curitiba.

O Cientista

Mesmo os gênios têm seus tropeços, meu amigo. Mas vamos brindar: ao Toxoplasma gondii, aos meus cientistas e a suas cobaias humanas.

O Terrorista: É, cumpriram bem o papel de ratos no labirinto. Ao futuro, que nos pertence. Saúde!